segunda-feira, 17 de novembro de 2014



 A Infância como Categoria Antropológica REVELADORA: Identidades Infantis como Construções Sociais e Históricas




“Mas agora, que se achava envolto em velhas roupas de algodão, que se tinham tornado amareladas naquele serviço, estava etiquetado e catalogado, e caiu imediatamente na sua real situação – uma criança abandonada – o órfão de um asilo – o humilde, meio esfomeado escravo para ser esbofeteado e socado através do mundo, desprezado por todos, não amparado por ninguém.” (DICKENS, C. “Oliver Twist”)


Esse artigo se propõe a entender a criança a partir de um olhar antropológico, buscando demonstrar com clareza que infância nada mais é do que uma invenção social, moderna, que determina padrões de comportamento.
Estudar a infância tem sido um desafio, pois ainda hoje, há certa dificuldade em se reconhecer a criança como um objeto legítimo de estudo. Apesar de o conceito de infância ter adquirido dimensão social no século XIX, só muito recentemente que a infância passa a ser entendida como construção social. A infância e a juventude são invenções da modernidade, e só passam a ter importância no pós Revolução Industrial, com a ascensão do modelo patriarcal burguês. Foi a partir da este momento histórico, onde as crianças também faziam parte das cenas nas fábricas, que se passou a olhar a criança como agente social. É devido ao papel que a criança desenvolve no XIX que ela passa a ser percebida pelo Estado como valioso patrimônio para a nação. É com o surgimento das novas ciências no XIX que se tornou possível essa compreensão da infância, pois os estudos da sociedade abriram caminho para o estudo de identidades e indivíduos.

“A infância passa a ser “visível” quando o trabalho deixa de ser domiciliar e as famílias ao se deslocarem e dispersarem, não conseguem mais administrar o desenvolvimento do filho pequeno.” (LEITE, 2003)


A antropologia se firma como um ramo de conhecimento em fins do século XIX, como a ciência social responsável pelo estudo de outras sociedades e culturas. Ao longo do século, essa definição foi se tornando menos precisa, e hoje a antropologia tem como objeto a própria sociedade. Esse estudo, dedicado aos fenômenos sociais que são próximos, abriu caminho para um estudo voltado a criança. A partir da expansão da antropologia em relação às outras disciplinas das Ciências Humanas é que podemos  pensar em uma Antropologia da Criança. Com influência do enfoque psicanalítico no campo da etnologia, a antropologia pode se renovar e criar uma nova escola na antropologia cultural, onde o estudo da cultura e personalidade se tornou um instrumento valioso. É a partir da influência de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, ou seja, da psicanálise, que a antropologia desenvolve a Antropo-Psicologia. Portanto, a antropologia passa a entender a criança como agente social e a infância como categoria condicionada pelo meio em que a criança vive. A ênfase no estudo sobre a formação da personalidade do individuo possibilitou entender a criança como parte ativa na consolidação de seu lugar na sociedade. Se a sociedade é constantemente construída, ela só poderá sê-lo se não pelos indivíduos que a constituem. A infância e a juventude não são vividas do mesmo modo por todas as crianças e adolescentes de cada canto do planeta.  Cada uma se relaciona ao seu meio cultural de maneira única, e não apenas com a passividade de um receptáculo de informações, mas também como agente produtor de cultura.

“A construção de uma relação respeitosa à alteridade da infância/adolescência passa pelo reconhecimento das crianças/adolescentes como sujeitos críticos e criativos, que criam seus jeitos próprios de interpretar e vivenciar as coisas do mundo, que produzem uma estética própria; são sujeitos que rompem com o estabelecido, mesmo que muitas vezes façam na clandestinidade”.(BATISTA, 2005)
           
            Segundo Batista, a criança deve ser compreendida como sujeito social ativo e atuante, produtor de cultura. A essa criança ativa se dá o nome de criança atuante, ou seja, aquela que tem um papel ativo na constituição das relações sociais em que se engaja, sendo, portanto, agente na incorporação de papéis e comportamentos sociais. Clarice Cohn, uma estudiosa da antropologia da criança fez um estudo sobre como as crianças interagem com o meio. Através da análise das relações sociais de meninos de rua da cidade de São Paulo, observando suas relações com a família e com outros atores da realidade urbana, demonstrou que elas têm um papel ativo na elaboração de uma imagem e uma identidade para si e para os outros que estão envolvidos em suas relações.

“Por essa pesquisa, vê-se que essas crianças engajam-se ativamente na constituição de laços afetivos e de relações sociais em todos os espaços pelos quais circulam. Isso inclui desde a constituição de “agrupamentos” de composição diversa e particular – mas obedecem a códigos e regras e estabelecem para si um local definido e definidor -, passando pela família e as instituições...” (COHN, 2003)

A antropologia da criança entende a cultura como um sistema simbólico onde a criança incorpora gradativamente esse sistema de símbolos culturais. As culturas infantis não estão alheias à cultura societal. Muito pelo contrário, sua base está nas relações sociais mais amplas por elas observadas e significadas em suas produções.
           
“Elas elaboram sentido para o mundo e suas experiências compartilhando plenamente de uma cultura. Esses sentidos têm uma particularidade, e não se confundem e nem podem ser reduzidos àqueles elaborados pelos adultos: a criança tem autonomia cultural em relação ao adulto.”  (COHN, 2003)

            Por fim, devemos ressaltar que nas mais diversas sociedades, as crianças podem ser concebidas como mais ou menos atuantes, na elaboração dos conhecimentos de que se apropriam, dependendo do meio em que elas estão, e que a categoria infância não pode ser vivenciada e compreendida do mesmo modo por todas as crianças, pois esta etapa da vida  do individuo varia de sociedade para sociedade. Ora, uma criança polinésia jamais viverá como uma criança brasileira. Ocorre que mesmo com as diferenças marcadas por distintos modelos culturais e sociais em que essas crianças crescem, ainda há uma necessidade de se estabelecer políticas de igualdade e educação mais eficientes. Uma análise minuciosa da antropologia da criança, sempre observada e entendida em seu contexto, pode ter um valor propositivo, onde a criança passa a ser entendida e deve ser respeitada enquanto um sujeito com direitos, ativo e participativo.




BIBLIOGRAFIA


BARRIO, Angel Espina. Manual de Antropologia Cultural. Recife : Editora Massangana, 2007.

BATISTA, Rosa. Cotidiano da Educação Infantil: espaço acolhedor de emancipação da criança.  In: Anais do Congresso do Fórum de Educação infantil dos Municípios da AMREC. Educação Infantil: identidade em construção. Criciúma – SC, 2003, pp. 45-58.

COHN, Clarice. Antropologia da Criança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005

FREITAS, Marcos C. História Social da Infância no Brasil. São Paulo : Cortez, 2003.


Texto de autoria de : Cintia Migliorini Lins - Bacharel em Ciências Sociais.


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