segunda-feira, 17 de novembro de 2014

VIRTUDE, FORTUNA E GLÓRIA:
AS ORIGENS DA OBRA DE MAQUIAVEL E O IMAGINÁRIO MEDIEVAL

ANTECEDENTES

É notável que a Idade Média, no senso comum (inclusive no meio acadêmico), é considerada como um “buraco” na história, um infeliz interstício onde a sociedade européia se submeteu à ignorância total. Com a queda do império romano e o fim do mundo antigo a civilização, o progresso intelectual e a arte teriam sido abandonados por mais de um milênio, dando lugar à barbárie, ao fanatismo religioso e à insanidade. Nesse sentido convencionou-se chamar a Idade Média de “Idade das Trevas”, período em que a sociedade européia teria se afastado da luz, e só voltaria ao caminho da civilização e esclarecimento com o advento do Renascimento.
Observando a história de uma forma crítica, veremos que essa visão é, de fato, absurda. A história é contínua e deve ser entendida deste modo. Por mais que houvesse um esforço dos homens do início da Idade Moderna de romper com os padrões e o modus vivendi medieval, seu imaginário estava, com efeito, impregnado de conceitos, imagens, padrões de comportamento e ideais desse período e isso não pode ser simplesmente ignorado. Considerar o Renascimento e a Idade Moderna como a continuação do desenvolvimento da civilização ocidental após a desintegração do mundo antigo é ignorar um período de mil anos que foi suficiente para cristalizar na sociedade européia um modo próprio de ver o mundo e as concepções do imaginário dessa época foram carregadas para a Idade Moderna com muito mais intensidade que as concepções da antiguidade. Intensas mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais de fato ocorreram durante os séculos XV e XVI, mas essas mudanças, apesar de representarem uma ruptura com o momento histórico anterior, estavam embebidas de aspectos próprios da Idade Média. O objetivo desse artigo é tomar como objeto a obra de Nicolau Maquiavel, uma produção clássica do primeiro humanismo renascentista, e mostrar como os símbolos do imaginário medieval estão vivamente presentes em nela.
 A corrente realista da qual faz parte Maquiavel é uma resposta aos infortúnios desse período de transição assim como grande parte da produção renascentista. Após a chamada crise do século XIV, período em que a sociedade européia passou por um momento histórico de horrores, com a fome, a peste e a guerra presente em sua vida cotidiana, houve uma tentativa generalizada de recompor a Europa. Os séculos seguintes foram marcados por esse estado de espírito de renovação que motivaram um novo momento de produção estética e intelectual e o humanismo está intimamente relacionado com este contexto. A Igreja Católica se modificava nesse período ao mesmo tempo em que perdia influência de forma relativa e sua censura sobre todas as formas de conhecimento se tornou mais tênue, permitindo o florescimento de novas idéias. O que devemos nos atentar é que as matrizes teóricas e simbólicas dessas novas idéias já estavam presentes no cenário intelectual e no imaginário europeu durante grande parte da baixa Idade Média. A obra de Maquiavel “O Príncipe” está repleta de conceitos largamente difundidos no pensamento medieval. Virtuo, fortuna e glória criam a trilogia de virtudes que um soberano deveria ter segundo Maquiavel. Ao conceituar os três com seus respectivos significados iremos voltar aos séculos anteriores para recuperar a importância desses conceitos e seus respectivos símbolos. Por conta da leitura sem preparo é que Maquiavel foi mal interpretado, por isso, abaixo faço a defesa deste gênio e coloco em destaque o verdadeiro significado de seu pensamento e as origens dos signos por ele utilizados.
 O primeiro humanismo do renascimento está intrinsecamente arraigado nas questões colocadas por Maquiavel em sua obra mais famosa “O Príncipe” explicitando como um arcabouço alegórico a problemática do período. As obras do primeiro humanismo estão ligadas com a transição e o declínio da Idade Média em relação à consolidação do Antigo Regime. Nesse período, a literatura antecipa o Estado que ainda não está consolidado, e sim passando por uma tempestade nebulosa na política e por convulsões populares devido às transformações nos costumes cotidianos. Este conturbado período observa a Igreja perdendo parcialmente a sua influência, o esfacelamento das famílias feudais devido a desentendimentos principescos e a incerteza como valor fundamental sobre o que virá. A literatura do período, visionariamente, antecipa o regime que viria a ter vigência nos séculos seguintes e normatizam, através da criação de manuais, a superação da problemática do esfacelamento político e social do momento histórico que passava a Europa.
É nesse cenário que se imbrica a obra de Maquiavel, que inovadoramente inaugura a corrente realista fazendo uma constatação empírica do real. Uma obra fundamentalmente pragmática que se distancia dos tipos de narrativas feitas até o momento que buscavam o tipo de sociedade ideal. Ele explicita de que forma seria possível e funcional a reconquista de poder em sua pátria que naquele momento havia sido tomada por Carlos VIII, rei da França, que dominava a Itália na época.  Ele analisa de forma clara e soluciona o problema da tomada francesa, propondo aos Médicis, a família mais influente de Florença, que retomem seu lugar de direito. Em sua obra, Maquiavel não defende nenhuma forma de governo; ele apenas esquematiza a forma de governo necessária para a retomada de poder naquele momento. Muito mal interpretado Maquiavel foi entendido em nossa contemporaneidade como um mau caráter, defensor do absolutismo e “maquiavélico”, palavra que provém de seu nome com uma conotação de crueldade e falta de ética. Porém, se mantermos nossas mentes atentas ao que realmente está escrito em sua obra, ficará clara a visão de que a ética não foi abandonada como se pensava, mas, ao contrário, está deslocada do começo da obra para o final, pois os meios não estão encerrados em si. A glória do soberano nada mais é que a glória do Estado que leva a sociedade à felicidade. Tal felicidade a que se refere Maquiavel é aquela encontrada em Epicuro, felicidade como prazer estável e ausência de dor na qual se encerra no equilíbrio dos desejos por meio da razão.
Segundo Maquiavel o soberano deveria ter como prática condutas virtuosas, essas que o levariam à gloria, pois é através da virtuo que o príncipe faz a roda da fortuna girar a seu favor, pois o destino gira sobre os impulsos da roda, essa que pode ser dominada se o soberano for virtuoso.
Não se pode entender essa lógica se nos ativermos ao sentido atual dessas palavras. É preciso entender, a partir do olhar medieval e dos conceitos humanistas, qual o sentido real desses signos no contexto da Baixa Idade Média. A realidade medieval conheceu um mundo de contrastes onde as diferenciações eram muito claras. Existiam dois pólos: bem e mal, luz e trevas, divino e profano. Um mundo maniqueísta, dotado da capacidade de afastar a compreensão humana do real e focá-la no simbólico. A Igreja Católica pregava um mundo regido pela vontade de Deus e pelo livre arbítrio dos homens que, de acordo com suas atitudes, seriam salvos ou não quando chegasse o julgamento final. Nesse sentido, não havia espaço para o acaso, a sorte ou mesmo para o destino. O fato é que esses conceitos estavam impregnados no imaginário da sociedade européia medieval na forma de símbolos como a roda da fortuna. Da mesma forma, a morte era vista como o ceifador, a soberania como uma mulher ou rainha como na tradição celta entre outros muitos símbolos. Os arcanos do tarô estão intimamente ligados a este simbolismo.
 A obra de Maquiavel está, em seu íntimo, embebida do sentido desse simbolismo antigo que ao longo da Idade Média era cultivado paralelamente à doutrina católica. Primeiramente, para compreendermos a aplicação desses símbolos, precisamos entender a estrutura social medieval. A sociedade européia medieval era uma sociedade de estamentos de muito pouca ou quase nenhuma mobilidade e esta estrutura perdurou por toda a Idade Moderna. Clero, nobreza e povo tinham funções distintas nos desígnios de Deus e por este motivo tinham modos de vida radicalmente distintos. Ora, para os pobres camponeses não havia possibilidades de ascender. Na chamada Baixa Idade Média, uma série de fatores resultou em um período de crise generalizada durante o século XIV que pode, de certa forma, ser entendida como a causadora das alterações que a sociedade européia passaria nos séculos seguintes. É relevante lembrar que o declínio do Estado vigente tomou forma de divertimento como podemos observar nos relatos do período. As histórias medievais dos séculos XIV e XV têm como características o descaso popular com os conflitos das casas nobres. Encontram-se histórias que vão do romance cavalheiresco as cantigas de escárnio. Os medievos assistiam cenas que criavam uma atmosfera de hostilidade e dissolução da unidade política já que esta era baseada em alianças entre as dinastias nobres e reais dos reinos europeus. As tensões e conflitos entre essas famílias colocaram em cheque o equilíbrio de poder na Europa da Baixa Idade Média. Não são raros os episódios relatados do período em que a inconstância dos membros da alta nobreza titular colocava em perigo toda uma estrutura social.

No fim dos séculos XIV e no principio do século XV a cena política dos reinos da Europa estava tão cheia de ferozes e trágicos conflitos que os povos não podiam deixar de ver tudo o que dizia a respeito à realeza como uma sucessão de acontecimentos românticos e sanguinários: na Inglaterra o rei Ricardo II, destronado e em seguida secretamente assassinado, enquanto quase ao mesmo tempo, o mais alto monarca da Cristandade, seu cunhado Venceslau, rei dos romenos, foi deposto pelos eleitos; em França um rei louco e pouco depois uma terrível luta de partidos, abertamente iniciada com o terrível assassínio de Luis de Orleães, em 1407, e indefinidamente prolongada pela retaliação de 1419, quando João sem Medo foi assasinado em Montereau. (Huizinga, Johan. “O Declínio da Idade Média”, pp17 a 18).

Esses trágicos incidentes e infortúnios gerariam a vingança dos príncipes e grão-duques que, para o povo, aparentavam como rivalidades motivadas por caprichos e paixões pessoais. Nota-se a inconstância da sorte das casas, essa sorte vista como fortuna. O conceito simbólico da palavra consiste na sorte que pode ser guiada conforme as atitudes de um soberano e não uma sorte que ao bel prazer do destino.
Na obra de Maquaivel existe um capitulo que fala da importância da fortuna para o príncipe “ Quantum fortuna in rebus humanis, possit et quomodo illi sit occurrendum”. Ele coloca a importância do livre arbítrio nas decisões e do uso da virtuo como parâmetro ordenador da fortuna. Um homem que usasse bem a virtuo cria uma estabilidade na sua sorte.

Dito isso, concluo que, sendo a sorte (fortuna) inconstante e os homens obstinados em suas formas de agir, estes serão felizes pelo tempo em que com ela convergirem e desditosos quando dela divergirem. E considero o seguinte: que mais vale ser impetuoso que circunspecto, pois que a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa é preciso batê-la e maltrata-la. (Maquiavel, Nicolau “O Príncipe”, pp. 123 a 124)

A fortuna foi uma palavra muito significativa para o período e está intimamente relacionada à iconografia do Tarô de Marselha. A Roda da Fortuna, arcano maior do Tarô de Marselha e símbolo presente no imaginário europeu medievo, tem a mesma representação no simbolismo das cartas e na leitura de Maquiavel.
Uma questão que não pode deixar de ser discutida é o fato de a iconografia simbólica do tarô ser considerada pagã, o que estaria em direta oposição à supremacia ideológica mantida pela Igreja durante a Idade Média. A solução deste paradoxo se mostra clara se considerarmos a Europa medieval, mais do que uma sociedade profundamente católica, como uma sociedade profundamente mística. A riqueza de símbolos, lendas, sagas, mitos e imagens que povoavam a Europa no período estavam bastante vivos no imaginário inclusive na doutrina católica. As lendas do ciclo arturiano são um claro exemplo disso. Os cavaleiros da Távola Redonda, em sua demanda pelo Santo Graal, cálice que Cristo teria partilhado com seus apóstolos na Santa Ceia, são a representação ideal do cavaleiro medieval cristão. Por outro lado, a saga mítica dos cavaleiros de Artur está carregada de elementos pagãos e oriundos da mitologia celta. O Graal, a espada Excalibur, a ilha de Avalon, o mago Merlim; todos estes ícones conviviam no imaginário europeu juntamente com a doutrina da Igreja Católica.



OS SÍMBOLOS E A IDEOLOGIA NA IDADE MÉDIA

Durante a Idade Média, os mitos foram de uma forma geral, apropriados pela Igreja Católica. A cristianização do mito de Artur e seus cavaleiros está inserida nesse contexto. Isto se explica no sentido de validar perante a sociedade a ordem estamentária através da uma ideologia que não pode ser ignorada, pois está ligada ao sagrado. Podemos considerar que na linguagem iconográfica está a representação desses mitos e sua cosmologia, mas, muito além disso, a representação social da condição humana no momento. Nesse sentido, os Arcanos do Tarô nos refrescam a mente em relação ao pensamento medieval acerca de alguns conceitos. É importante ressaltar que no fim da Idade Média o pensamento religioso tendia para a representação de imagens, que solidificavam e davam consistência ao pensamento medieval. O desejo de consagrar todas as ações da vida por meio de imagens tomava conta de todas as esferas sociais, desde os seguidores do cristianismo até os místicos.
Henry Suson, um místico da época, empenhou-se em tentar consagrar os aspectos da vida cotidiana, figurando o amor profano entre outras questões em uma homenagem a sua noiva “Eterna Sabedoria” além de satirizar a conduta cristã. O sentido de sagrado e profano foi se desgastando ao longo do tempo, pois a sacralidade se misturava com o cotidiano fazendo com que as dimensões do sagrado se tornassem demasiadamente comuns. Essa constante relação dos símbolos com a vida cotidiana vai, aos poucos, ganhando autonomia fora do manto da Igreja. Mesmo com a oposição da Igreja ao uso excessivo das imagens, ela não conseguia arrancar das garras populares a necessidade de uma forma concreta, palpável às emoções e pensamentos. A solução da Igreja era apropriar-se de todos esses símbolos como parte de sua doutrina e perseguir aqueles que se cristalizavam fora dela. O fato é que a imagem se tornara parte do pensamento medieval para a compreensão do mundo.

A imagem de uma árvore ou uma genealogia bastavam para representar qualquer relação de origem e causa. Uma arbor de origine júris et legum, por exemplo, classificava todo o direito sob a forma de uma arvore com numerosos ramos. Devido aos seus métodos primitivos o pensamento evolucionista na Idade Média estava destinado a ficar esquemático, arbitrário e estéril.” (Huizinga, Johan. “O Declínio da Idade Média, pp. 211)

A explicação para todas as coisas se tornava universal no simbólico, usando a imagem como entendimento de significado e finalidade como fica evidenciado no exemplo acima sobre da árvore. A associação simbólica ao evento que fundamenta as práticas cotidianas pressupõe uma confusão entre essência e materialidade das coisas. Tais abstrações, sentimentos e condutas relacionam imagem e essência sob a forma de conexão social e mística[1]. A universalidade de certas imagens e cores criava uma ligação com o mundo inconsciente e suas referências. Um exemplo seria o uso da cor vermelha nas imagens, cor que significava sangue, sacrifício, vida e amor. Em conjunto com uma figura, essa cor poderia expressar um desses significados.
Segundo Huizinga existia uma forte relação entre o simbolismo e o realismo[2] escolástico, que deve ser considerado mais como uma atitude mental do que uma opinião filosófica inerente à civilização da Baixa Idade Média que pautaria todas as expressões do pensamento e imaginação. O neoplatonismo teria influenciado muito expressivamente a teologia medieval, mas não foi a única causa do movimento realista na Baixa Idade Média, pois tudo que recebe um nome se torna um entidade e toma uma forma que se projeta no mais alto plano divino, o Céu, esta forma na maioria dos casos tem ligações com a forma humana.
A partir do simbolismo é que surge o uso de alegorias no período, onde a partir da atribuição da existência de uma idéia real a personifica. Alegoria e simbolismo estão em relação de interdependência. O simbolismo como uma relação de profundidade espiritual perante a idéia e a alegoria como relação superficial dando materialidade e idéia. A projeção da idéia estaria classificada como alegoria, que a partir da lógica criada pelo simbolismo pode ser compreendida com um conjunto harmônico entre símbolos e idéias. Mircea Eliade discute a importância do mito para o homem através do pensamento de que devemos pensar que, independente da natureza do mito ele é o exemplo fundamental para que se siga determinada ação dentro de uma situação, pois ele já a vivenciou “in illo tempore”. Essa constituição é materializada no conjunto simbólico através do mito, numa relação que parte do real para o mundo metafísico. O simbolismo acabava por divinizar e mistificar a idéia criando uma relação de existência anterior.
A idéia de símbolo traduz a importância do acontecimento sendo ele nesse mundo épico narrado pelos antigos ou parte do mundo linear dos contemporâneos, não importa qual momento a idéia de símbolos exprime “um sistema de sinais”.  
Segundo Levi Strauss “o pensamento mítico se manifesta na História”, para a fabricação de História, “explicar nós mesmo” buscamos procedência nos mitos, então o “fato histórico participa da natureza do mito”. Os medievos nada mais faziam do que essa relação do real com o mítico como agentes da sua historia, não conscientes. E a baixa Idade Média manteve essa tradição tão viva que os homens do século XIV tendiam a simbolizar de forma espontânea vários tipos de  pensamento, atribuindo a eles logo formas figurativas, como no caso do Tarô, que carrega até hoje o simbolismo medieval em sua iconografia. O simbolismo funcionava como “um espelho que se opunha ao do próprio mundo dos fenômenos”[3].
A partir do entendimento do patamar de importância dos símbolos para os homens da Baixa Idade Média, podemos explorar o uso das alegorias medievais nos conceitos utilizados por Maquiavel como qualificações de um bom soberano, para que ele possa deter o poder do Estado em suas mãos. As três dimensões exploradas por Maquiavel das virtudes de um príncipe podem ser entendidas no simbolismo do tarô.
A cosmologia de fortuna nesse contexto está intimamente ligada à sorte. Aquele que pode ser boa ou ruim. O Arcano X, a Roda da Fortuna, no Tarô de Marselha tem como elementos iconográficos, uma roda que simboliza o jogo, o girar para que lado – cima, baixo. A roda está dividida entre bem e mal, ou fortuna e infortúnios, pois há dois gênios colocados em cada metade da roda, o gênio da maldade Tífon e o gênio da bondade Ermanubi. Como ainda está em questão o maniqueísmo por isso consideramos maldade e bondade, porém esses gênios quando pensados em fortuna para Maquiavel estão relacionados a infortúnio e fortuna.
Não se deixa de falar na Roda sem lembrar a carta que a antecipa, o Eremita, o Arcano IX, que se entende na numerologia como o número que representa o fim, a condição de todas as experiências, sábio, o eremita adquire inteligência pela luz da experiência e da prudência. O Eremita é sábio e prudente. Para saber girar a Roda é necessário que se tenha a sabedoria do Eremita, entendida por Maquiavel como virtuo, sendo essa um conjunto de atribuições que deveriam compor a capacidade de um príncipe para que ele possa governar com eficiência e alcançar a glória. A virtuo de Maquiavel não se encerra apenas na iconografia do Eremita, mas também pode ser encontrada , o exame de consciência, a balança da justiça que se equilibra conforme a capacidade de saber girar a roda.
E por fim a glória que consiste na totalidade do sucesso, está simbolizada no tarô pelos Arcanos XI, o Mundo, onde o êxtase e a plenitude são finalmente alcançados.
É claro que a iconografia não antecede seus conceitos e é a partir do significado atribuído no inconsciente coletivo que podemos fazer analogia dessas imagens com o texto de Maquiavel, como discutido acima. À medida que a Igreja Católica foi perdendo o controle da ideologia simbólica medieval, foi possível o florescimento de uma obra com o teor do “Príncipe” de Maquiavel. Surge um entendimento de que o soberano é dono de sua própria sorte, devendo regê-la com honra e sabedoria a caminho da glória, sem abandonar a fé. Aqui, o homem, no caso o soberano, não é mais um simples instrumento dos desígnios de Deus, mas um indivíduo capaz de colocar o destino a seu favor e a favor do povo que governa. Nesse sentido, o Príncipe se encaixa brilhantemente no contexto do primeiro humanismo.




O CAMINHO DA DOR

Segundo Huizinga um sentimento geral de calamidade ameaçava todos, e algumas crônicas do momento que foram encontradas fala de uma interminável serie de processos, crimes e perseguições. As crônicas de época deixam mais vestígios de infortúnio do que de felicidade, e durante o século XV estava em questão à inconstância da vida e o sofrimento atribuído a ela. Todos os modos e forma vigentes estavam em declínio dando espaço à busca de novas estruturas que desembocariam enfim no renascimento. 
A Idade Média sempre vivera a sombra da Antiguidade, e o que seria o Renascimento senão a perpetuação dessa sombra como algo palpável, além da assimilação do pensamento escolástico cheio de simbolismo conduzido pela Idade Média, à concepção dualista da vida e o espírito da cavalaria.  Na mesma esfera de declínio do pensamento medieval é que surge o humanismo, nascidos da mesma mãe na deixam de ser irmãos.
Em qualquer época se encontra documentos de infortúnio porém, o fato é que na baixa Idade Média esses documentos se tornam constantes, esse desprezo pelo otimismo é encontrado também em obras humanistas. Em um trecho extraído de uma carta de Erasmo de Hotterdan , o mesmo deixa clara a sua falta de feição pela vida, onde relata “já ter vivido o suficiente e vê num futuro próximo a esperada idade de ouro” [4].
A palavra melancolia fora bem difundida no século XIV carregando a idéia reflexão, fantasia e tristeza, onde que dominava o momento e a poesia de Dechamps colocava o mundo em condições de loucura “o mundo é um velho caído na demência. Começou por ser inocente, depois foi sensato muito tempo, e justo, virtuoso e forte”[5] esse pessimismo característico da época não esta ligado a religião mas sim a crise geral que passava a Europa, fome, peste, disputas entre as casas dinásticas e a constância das incertezas e inseguranças suplantadas nos corações do populacho medieval.
Nasce a partir desse cenário um gênio chamado Maquiavel que agraciou a humanidade com sua obra “O Príncipe”, expondo o imaginário medieval e suas representações simbólicas.





BIBLIOGRAFIA

ELIADE, Mircea: “Mitos, Sonhos e Mistérios” Edt.70, 1ºedição. 2000

ELIAS, Norbert:O Processo Civilizador:Uma História dos Costumes, volume 1” Editora J.Z.Edt, Rio de Janeiro 1994.

DUBY, Georges: “A Sociedade Cavaleiresca” Editora Martins Fontes, São Paulo 1989.

HUIZINGA, Johan: “O Declínio da Idade Média” Editora Ulisseia,. São Paulo

MAQUIAVEL, Nicolau: “O Príncipe” Edt. L&PM, Rio Grande do Sul 1998.

STRAUSS, Levi: “Raça e Historia”. Edt. Presença, Lisboa, 1ºedição, 2000.







[1] Segundo Huizinga, isto pode parecer uma pobre função mental, característica do pensamento primitivo na percepção entre moderna, mas na Idade Média sem esse sentido, o simbolismo está ligado à concepção de mundo realista no fim da baixa Idade Média.
[2] Mentalidade superidealizada que leva a materialização do pensamento através de um conjunto simbólico.
[3] Huizinga usa essa definição para falar dos perigos do simbolismo.
[4] Excerto retirado de Huizinga, p 32.
[5] Idem , p 36

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