segunda-feira, 17 de novembro de 2014

GUERRA EM NOME DA CULTURA:

O PARADIGMA DE HUNTINGTON E A DESINTEGRAÇÃO DA IUGOSLÁVIA


Este artigo tem a intenção de colocar em questão o novo paradigma de guerra contido na teoria de Samuel P. Huntington, diretor de Estudos Estratégicos de Harvard, e relacioná-lo ao conflito étnico e político ocorrido durante a desintegração da antiga Iuguslávia. Será colocada em pauta a situação daqueles que sofreram e ainda sofrem com os conflitos inter étnico nos Balcãs e possivelmente, em certo nível, explicar suas razões. Para isso se faz necessário traçarmos um panorama do contexto político e econômico vigente na Europa Oriental no cenário pós Guerra Fria para contextualizar o momento histórico do evento a ser discutido, mas primeiramente devemos apresentar em breves linhas a idéia central da teoria de Huntington. 
Em 1993, Huntington publicou na revista Foreing Affairs um ensaio que inaugurou um novo paradigma explicativo para as guerras no mundo pós Guerra Fria. O artigo se chamava “Choque de Civilizações” [1]. Os paradigmas que buscavam explicar a origem dos conflitos até então eram, para ele, insuficientes para explicar os conflitos pós Guerra Fria. Huntington defende que os conflitos contemporâneos teriam sua origem primariamente calcada em diferenças culturais de nações e grupos de civilizações diferentes e não em divergências ideológicas ou disputas econômicas. Para ele, o paradigma apregoado por vários autores que colocavam a origem de conflitos nesses termos era, com efeito, insuficiente. Para entendermos a teoria de Huntington, é muito importante a compreensão de seu conceito de civilização. Ele define o termo como a identidade cultural mais ampla de um povo. A identificação cultural oriunda da globalização teria deixado poucas civilizações que poderiam ser classificadas como tal no mundo contemporâneo. A ocidental, a islâmica, a hindu, a eslava ortodoxa, a latino-americana, a japonesa, a confuciana e a africana são as colocadas pelo autor. Tais civilizações teriam padrões culturais de certa forma diversos o suficiente para motivar conflitos em muito maior grau que a ideologia ou a economia. “Por cultura se morre” – afirma o autor. Nesse sentido, o choque de civilizações seria uma abordagem que melhor explicaria os conflitos dos nossos tempos como, por exemplo, o conflito da desintegração da Iuguslávia.
           
O Leste Europeu tragado pelo Socialismo


Após a Segunda Guerra Mundial, o Leste Europeu foi tragado pelo socialismo e os arredores da Europa Oriental estavam sendo coagidos por sua forma de governo. A implantação do socialismo nesses países se deu pela força e seguia o modelo soviético, o chamado socialismo real que se opunha ao socialismo de Marx (socialismo ideal). Sua práxis estava fundamentada em cinco aspectos: O primeiro é a unidade partidária. Era permitido um só partido para todos os países que foram absorvidos pela URSS, partido este que se confundia com o Estado. O segundo aspecto era o econômico. A economia desses países agregados era centralizada nas mãos do Estado. O terceiro estava ligado à industrialização, esta que teve um expressivo crescimento, mas que criava um abismo entre as indústrias de base em contraposição com as de bens de consumo, causando falhas e escassez no abastecimento da população de bens de consumo. O quarto aspecto está relacionado ao fato de a agricultura ter sido relegada a segundo plano, pois a prioridade do Estado era, com efeito, a industrialização. Além disso, a coletivização das terras resultou na queda da produção agrícola. E, por fim, o último aspecto que foi, de fato, o mais relevante para a ocorrência da desintegração do Leste Europeu. O isolamento desses países do resto do continente. Enquanto a população se mantinha na miséria para fomentar o sistema socialista implantado nesses países, sistema que não admitia a existência de classes sociais para criar a ilusão de que existia apenas a classe trabalhadora, os burocratas do Estado podiam, em condições especiais, adquirir produtos de consumo não acessíveis à população com muita facilidade. Além disso, foi criado o Comecom, uma organização criada pela URSS para isolar a economia do Leste Europeu do resto do continente, criando interdependência entre os Estados agregados a ela. Além disso, havia também uma polícia que segundo o Pacto de Varsóvia poderia intervir nos países membros em caso de ameaça à integridade territorial desses paises. Essa polícia era na prática usada como repressora da população.
A resposta a essa subordinação do Leste Europeu, foi a desintegração da URSS, que aos poucos teve sua imagem política desgastada graças à forma de governo repressora e abusiva da URSS. Com o fim do advento da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, os países subordinados entraram em colapso juntamente com seu dominador, e buscaram consolidar novas formas de governo. Ora, tais formas de governo já haviam sido delineadas no trajeto histórico da movimentação libertaria dentro desses países.
Num período de quarenta anos a URSS passou por três tentativas de desligamento da Europa Oriental. A Revolução Húngara em 1956, a Primavera de Praga na Tchecoslováquia em 1968 e a crise da Polônia que ocorreu de 1980 a 1981. O governo soviético conseguiu suprimir essas crises e a população pagou com milhares de mortos pelas tropas que foram acordadas como defensoras no Pacto de Varsóvia. A Cortina de Ferro, assim chamada por Winston Churchill, primeiro ministro da Inglaterra, estava em crise e não mais serviria ao decadente poderio russo. A onda de insatisfação a que fora levado o Leste Europeu contribuiu em grande parte para que a situação hegemônica da URSS se partisse em uma questão de tempo. Estava se diluindo por dentro o socialismo soviético. Na Iugoslávia, a crise do socialismo real em que estava mergulhado o Leste Europeu causaria uma guerra civil tão sangrenta e dada à xenofobia quanto a Segunda Guerra Mundial. 
A Iugoslávia, até 1991, era eminentemente composta por seis Repúblicas federadas: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Bósnia-Herzegóvina além de mais duas regiões autônomas sob influencia da Sérvia, Voivodina e Kosovo. A Iuguslávia existia como nação desde o fim da Primeira Guerra Mundial, mas com o fim do socialismo, a estabilidade mantida entre as suas repúblicas não se sustentou e a tensão existente na região desembocou em uma sangrenta guerra civil entre sérvios e croatas.
A formação iugoslava trazia dentro de si a própria ruína, pois sua história sempre fora de antagonismos e rivalidades entre os povos que compunham seu território. Desde o século IX até a contemporaneidade existiu entre esses povos rivalidades étnicas e religiosas. De acordo com a teoria de Huntington, seria eminente um conflito na região após a Guerra Fria, justamente por viverem em um mesmo território povos de diferentes civilizações.

A Desintegração da Iuguslávia – Tragédia, metal forjado pelas diferenças étnicas

Após um período de estabilidade marcada pela liderança de Tito[2], que tentava colocar as diferenças étnicas em segundo plano unificando o Estado em prol do socialismo, uma tragédia viria a acontecer: a guerra civil sérvio-croata.
Seus antecedentes se explicam nas feridas que a Segunda Guerra Mundial criou nessa região, que se mantiveram abertas sangrando no seio da população sérvia durante todo governo de Tito, após a guerra. Os croatas praticaram, durante o período da guerra mundial, o extermínio sérvio em massa. Limpeza étnica, com direito a campo de concentração, como em Jasenovac, além da violência aplicada pelos croatas às famílias sérvias, que morriam a marretadas em trilhos de trem estendidos, agonizando, a espera de sua vez. A ocupação alemã durante a Segunda Guerra acirrou o ódio racial na região dos Balcãs, pois apoiava os croatas contra seus vizinhos. Possuíam uma milícia no modelo da SS. Alinhavam-se ao lado dos nazistas croatas, albaneses muçulmanos enquanto o restante da população fugia para as montanhas. Lá, esses perseguidos encontraram a forma de resistir à ameaça de extermínio. Organizam a resistência sérvia pelos seus monarquistas, os chetnis, sob a liderança do general Draza Mihailovic, o ex-ministro da defesa da Iuguslávia além do grupo de guerrilheiros comunistas sob o comando de Josef Broz, que ficou conhecido como Tito. Ao final da guerra, com a derrota dos nazistas e croatas, a resistência pode retomar seu lugar de direito. Aconselhava seus representantes a não colocar em pratica retaliações contra os croatas, pois era importante agora estabilizar os Balcãs.
A liga comunista comandada por Tito havia criado uma defesa forte nas montanhas e, em tempo integral, foi um grande obstáculo para as tropas de ocupação nazista. Após a queda de Hitler e a vitória da resistência, Tito foi colocado no governo da Iuguslávia.
Sob o comando de um único homem, a Iuguslávia passou tempos de relativa paz, pois as atitudes de Tito tornaram-no um líder carismático entre os povos eslavos do sul. A restauração da Republica Socialista Federada da Iuguslávia só fora possível graças às habilidades estratégicas de Tito que, enxergando o tamanho da ferida ainda aberta e a exaustão geral entre as repúblicas que compunham o Estado Iugoslavo, tomou como prática uma nova forma de aplicar o socialismo através de uma política integradora que pelo menos atenuava as diferenças etno-culturais entre os eslavos. Essas que estavam calcadas principalmente nas diferenças religiosas, a oposição de católicos, ortodoxos e muçulmanos. Como visionário, Tito percebeu que diminuindo a influência dos sérvios e croatas, ele diminuiria a chance dos antigos ódios da época da Segunda Guerra causarem conflitos e, nesse sentido, aumentou a representatividade dos outros grupos étnicos que compunham a Iuguslávia.
O rompimento com a URSS, em 1948, representou um grande feito. Tito era visto como um homem forte, que havia enfrentado os dois maiores tiranos do Ocidente, primeiro Hitler e agora Stalin, que se aproveitava da fragilidade do Leste Europeu para expandir sua política. O líder manteve a Iuguslávia coesa frente às pressões da Guerra
Fria e mesmo as diferenças étnicas estavam seladas por pelo menos um cisco histórico, pois o respeito que Tito havia conquistado entre os povos eslavos do sul era capaz de transcender o ódio entre eles. Segundo ele, a ameaça soviética era forte demais e a Iuguslávia teria que ser homogênea para poder proteger seus filhos. Os fatores econômicos também tinham força nessas circunstâncias, pois com a autonomia conquistada por Tito em relação a URSS, o país pode manter uma política externa independente ganhando o respeito internacional o que era de forte efeito na sua economia. Enquanto seus vizinhos enfrentaram a duras penas o comando repressor da URSS a Iuguslávia gozava de certa autonomia e organização. Em 1955, juntamente com o Egito e a Índia, a Iuguslávia lançou as bases da Organização dos não alinhados, países que não se encaixavam em apoiar a ideologia de nenhum dos blocos antagônicos (Capitalismo x Socialismo) que haviam se erguido no mundo do pós-guerra.
Quando a Iuguslávia parecia estar debruçada sobre a bandeira da estabilidade pronta para se tornar um gigante do Leste Europeu, os conflitos étnicos mais uma vez trouxeram conflitos na região. É realmente por cultura que se mata, e a Iuguslávia lançou mão de todo esse balanço positivo em nome de antigos ódios. Ficou claro que as diferenças não haviam sido superadas quando, na década de 70, um grupo nacionalista croata cometeu uma série de atentados no país. Definitivamente, para eles, não poderia haver convivência com os sérvios. Diante da ameaça de uma nova guerra civil, o general promoveu reformas nas estruturas de poder. Ele delegava a cada uma das repúblicas um grau maior de autonomia política e os presidentes de cada uma das repúblicas ocupariam alternadamente a liderança do grupo de países que formavam a Iuguslávia.
Em quatro de maio de 1980, Tito veio a falecer, o que rompeu o último elo de estabilidade no país. Como então manter a unidade iugoslava? A tentativa seria a de manter o a rotatividade no poder executivo que ele havia proposto, para assim manter o equilíbrio de poder e amainar as rivalidades.  Infelizmente, nenhum dos nomes indicados pelo parlamento tinha a estatura de poder e carisma que Tito gozava e logo todo o trabalho de Tito começou a desandar. À morte de Tito, se somou a queda do muro de Berlim. A decadência do regime socialista perante o cenário internacional fez com que uma onda de convulsões populares tomasse conta dos Balcãs. Pouco tempo após a morte de Tito, a Iuguslávia enfrentou uma grave crise econômica. O desemprego aumentou, eclodiram reivindicações populares e greves, a inflação passou a crescer e o aumento da divida externa passou a aumentar sistematicamente. O colapso generalizado do socialismo na Europa fez a crise adquirir dimensões absurdas o que motivou aquelas feridas que ainda sangravam pelos conflitos étnicos a se abriram de maneira irreversível se sobrepondo sobre todos os outros fatores. Assim eclodiu a guerra civil que a Iuguslávia viria a enfrentar.
As Repúblicas Federadas, frente a esse colapso no cenário Mundial, mostravam sua insatisfação de ter que conviver sob uma mesma liderança. No início de 1990, a LCI [3] abre as portas para o pluripartidarismo e perde sua grande influência política. Ainda em janeiro do mesmo ano, acontecem focos de revoltas na região autônoma de Kosovo. No mês seguinte, as LCI da Eslovênia, Macedônia e Croácia mudam de nome em prol do surgimento de partidos de caráter nacionalista. Em abril, a Eslovênia e a Croácia elegem governantes não comunistas. Em junho e julho, a Sérvia dissolveu o parlamento e Kosovo propunha transformar-se na sétima republica do país, que devido a sua proposta acabou sendo reanexada ao território Sérvio, perdendo sua autonomia conquistada com o governo de Tito. A Bósnia também caminhava frente a sua separação da Iuguslávia.
O ano seguinte também foi conturbado. A Eslovênia e a Croácia declaram sua separação da Iuguslávia com o apoio da Alemanha Ocidental. Essa declaração da Eslovênia fez com que em Belgrado, as tropas federais entrassem em choque com as forças locais. Quando a Croácia seguiu o caminho da Eslovênia, se deu por concretizado o nascimento de uma nova ordem nos Balcãs e estava claro que as diferenças étnicas voltariam a causar mortes. O conflito deslocou-se então para a região onde os sérvios constituíam maioria e com medo de passarem novamente pela situação de humilhação ocorrida durante a Segunda Guerra, tentaram obter o controle das regiões fronteiriças, auxiliados por tropas federais que eram praticamente constituídas por uma maioria de sérvios.
Em 1992, a Bósnia, por meio de um plebiscito, declara sua separação da Iuguslávia e a população sérvia que vivia na Bósnia reagiu da mesma forma que seus irmãos alocados na Croácia, mas, na Bósnia, a situação foi bem pior, pois a diversidade étnica era maior e incluía além de sérvios e croatas, muçulmanos. A partir daí, os sérvios começaram a se posicionar de maneira estratégica e a praticar a purificação étnica eliminando aqueles que não eram sérvios.
A ONU tentava manter uma política de ajuda humanitária às regiões devastadas pelos sérvios e a OTAN, em 1995, interveio na Bósnia com pesados bombardeios partindo de aviões norte-americanos em solidariedade aos croatas e muçulmanos ali presentes. Nesse momento, os sérvios, liderados por Milosovic, arrasaram os países envolvidos e, em 1993, passaram a dominar 70% do território Bósnio. A Bósnia só conseguira resolver essa crise com a ajuda da OTAN que determinou um massacre contra os sérvios que ali lutavam. Em 2001, os albaneses tornaram-se praticamente donos de Kosovo com a ajuda da OTAN, que, querendo expandir-se para o sul, atacaram a minoria sérvia ali presente e a Macedônia. A OTAN se opôs a essa ofensiva albanesa, mas isso não foi o suficiente para evitar que os guerrilheiros albaneses e as tropas macedônicas encontram-se em meio a sucessivos atentados e contra-ataques de ambas as partes.
O desfecho da Sérvia teria foi dos piores. Após 72 dias de ataques sucessivos efetuados pela OTAN, a Sérvia se viu obrigada a render-se e a vender seu estimado presidente como prisioneiro de guerra para ser julgado pelo Tribunal de Haia. Porém, até hoje a sombra desses conflitos está muito viva na região balcânica, que não deixou de ser uma bomba prestes a explodir por qualquer gota de água que faça transbordar o caldeirão étnico ali alocado.


O Paradigma de Huntington

Huntington estava certo ao dizer que o novo paradigma de guerra seria a cultura. O show de horrores que tomou conta dos Balcãs na década de 90 e se expande até hoje como uma bomba relógio pronta a explodir é, com efeito, fruto da diversidade étnica e cultural.
A nova ordem mundial multipolar que Huntington coloca em questão é formada por oito civilizações: a ocidental, a africana, a islâmica, a sínica, a hindu, a ortodoxa, a latino-americana e a japonesa, entendendo que civilização para ele é identidade cultural mais ampla de um povo. Um exemplo disso seria um francês e um italiano. São de culturas diferentes, mas são europeus e, num organismo maior do que esse, são ocidentais.
O que ocorre nos Balcãs é o chamado choque de civilizações, pois ali se encontram num mesmo território três linhas de civilização a Islâmica, Ocidental e a Ortodoxa. Huntington divide o mapa-múndi em áreas de cisão, onde se alinhariam as fronteiras de diferentes civilizações. É no território que se encontram as linhas de cisão que aconteceria o choque de civilizações e, a partir desse choque baseado na intolerância, a guerra. Para Huntington, não haveria mais guerras mundiais por disputa de mercado e hegemonia de estruturas políticas, mas sim por contas das diferenças culturais entre as civilizações e essas linhas divisoras seriam o foco dessas disputas.
O globo é dividido em oito modelos diferentes de civilização, todas elas propensas a desenvolver conflitos inter-étnicos em suas fronteiras. O que aconteceu na Iuguslávia foi o choque na zona de cisão, onde a luta se dá pelo controle do território e a soberania de uma determinada cultura. A Bósnia e Kosovo estão bem ao centro da linha de cisão e lá ocorreram os sangrentos combates entre as diferentes etnias balcânicas como vimos. Na Bósnia, a disputa se dá pelo choque de três civilizações, ocidentais croatas contra islâmicos bósnios e eslavos ortodoxos sérvios. Em Kosovo, o conflito se encerra entre islâmicos kosovares e eslavos ortodoxos sérvios. Huntington, ao escrever “O choque de civilizações”, analisa o contexto sobre esse olhar e de forma empírica, constata sua teoria.
Ele propõe como solução a intervenção do Estado núcleo, que diferentemente das grandes potências hegemônicas da Guerra Fria, nada mais seriam do que líderes dos demais Estados que constituem um bloco civilizacional. A Rússia como líder dos Estados eslavos ortodoxos, deveria intervir de maneira positiva na Sérvia para acalentar o conflito ali decorrente. Não seria da conta do Ocidente esse conflito pois a civilização ocidental não estava envolvida. Devido à intervenção equivocada da OTAN é que ainda hoje perdura a sombra de um novo conflito na região.
Para Huntington, a única maneira de a nova ordem mundial sobreviver é o alicerçamento em laços culturais comuns entre si. Os EUA, a ONU e OTAN deveriam parar de expandir sua política intervencionista em regiões que não sejam de sua alçada. Ele afirma que a civilização ocidental, para justificar sua gananciosa expansão, utiliza o pretexto de levar o mundo a uma civilização universal de igualdade e democracia. Seu produto não será nunca a igualdade, mas sim o confronto com outras sociedades para justificar e legitimar seu predomínio cultural.
Ao intervir nos Balcãs, foi isso o que os EUA e OTAN queriam mostrar para o mundo: sua capacidade de expansão cultural. Mas o fato é que nem toda cultura pode ser submetida, pois elas estão dentro de uma identidade cultural maior. Huntington propõe que os Estados núcleos, em uma atitude realista visando a paz, não interfiram em guerras que não estejam envolvidos a civilização que lideram, mesmo que seja em nome dos direitos humanos, justificativa bem considerável para a intervenção.
A Iuguslávia, agora já desintegrada, ainda mantém as diferenças étnicas em suas linhas de cisão. Para Huntington, tais diferenças só podem ser contidas pelos russos no que diz respeito aos sérvios e pelos islâmicos no que diz respeito aos bósnios.
A observação empírica dos conflitos armados que ocorrem na atualidade valida a teoria de Huntington pois o intervencionismo ocidental, encabeçado pelos EUA, em regiões dominadas por outras civilizações, só trouxe mais violência como aconteceu na Iuguslávia.


[1] Esse artigo daria em 1996 luz a um livro : Choque de civilizações
[2] Período que durou desde o final da Segunda Guerra Mundial até a morte de Tito em 1980.

[3] Liga Comunista Iugoslava, até então único partido existente na Iuguslávia desde a inclusão da política socialista. 

BIBLIOGRAFIA

OLIC, Nelson B. – “A Desintegração do Leste: URSS, Iuguslávia, Europa Oriental” São Paulo: Editora Moderna 1993.


SERVA, Leão –  “A Batalha de Sarajevo” Editora Página Aberta Ltda.1994.


VESENTINI, José W. – “Novas Geopolíticas: As Representações do século XXI” São Paulo: Editora Contexto 2003.

  Autoria do texto : Cintia Migliorini Lins - Bacharel em Ciências Sociais 

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