GUERRA EM NOME DA CULTURA :
O PARADIGMA DE HUNTINGTON
E A DESINTEGRAÇÃO DA IUGOSLÁVIA
Este artigo tem a intenção de colocar em questão o novo paradigma de
guerra contido na teoria de Samuel P. Huntington, diretor de Estudos
Estratégicos de Harvard, e relacioná-lo ao conflito étnico e político ocorrido
durante a desintegração da antiga Iuguslávia. Será colocada em pauta a situação
daqueles que sofreram e ainda sofrem com os conflitos inter étnico nos Balcãs e
possivelmente, em certo nível, explicar suas razões. Para isso se faz
necessário traçarmos um panorama do contexto político e econômico vigente na
Europa Oriental no cenário pós Guerra Fria para contextualizar o momento
histórico do evento a ser discutido, mas primeiramente devemos apresentar em
breves linhas a idéia central da teoria de Huntington.
Em 1993, Huntington publicou na revista Foreing Affairs um ensaio que inaugurou um novo paradigma
explicativo para as guerras no mundo pós Guerra Fria. O artigo se chamava “Choque
de Civilizações” [1]. Os
paradigmas que buscavam explicar a origem dos conflitos até então eram, para
ele, insuficientes para explicar os conflitos pós Guerra Fria. Huntington
defende que os conflitos contemporâneos teriam sua origem primariamente calcada
em diferenças culturais de nações e grupos de civilizações diferentes e não em
divergências ideológicas ou disputas econômicas. Para ele, o paradigma
apregoado por vários autores que colocavam a origem de conflitos nesses termos
era, com efeito, insuficiente. Para entendermos a teoria de Huntington, é muito
importante a compreensão de seu conceito de civilização. Ele define o termo
como a identidade cultural mais ampla de um povo. A identificação cultural oriunda
da globalização teria deixado poucas civilizações que poderiam ser
classificadas como tal no mundo contemporâneo. A ocidental, a islâmica, a
hindu, a eslava ortodoxa, a latino-americana, a japonesa, a confuciana e a
africana são as colocadas pelo autor. Tais civilizações teriam padrões
culturais de certa forma diversos o suficiente para motivar conflitos em muito
maior grau que a ideologia ou a economia. “Por cultura se morre” – afirma o
autor. Nesse sentido, o choque de civilizações seria uma abordagem que melhor
explicaria os conflitos dos nossos tempos como, por exemplo, o conflito da
desintegração da Iuguslávia.
O Leste Europeu tragado pelo Socialismo
Após a Segunda Guerra Mundial, o Leste Europeu foi tragado pelo socialismo
e os arredores da Europa Oriental estavam sendo coagidos por sua forma de
governo. A implantação do socialismo nesses países se deu pela força e seguia o
modelo soviético, o chamado socialismo real que se opunha ao socialismo de Marx
(socialismo ideal). Sua práxis estava fundamentada em cinco aspectos: O
primeiro é a unidade partidária. Era permitido um só partido para todos os
países que foram absorvidos pela URSS, partido este que se confundia com o
Estado. O segundo aspecto era o econômico. A economia desses países agregados
era centralizada nas mãos do Estado. O terceiro estava ligado à
industrialização, esta que teve um expressivo crescimento, mas que criava um
abismo entre as indústrias de base em contraposição com as de bens de consumo,
causando falhas e escassez no abastecimento da população de bens de consumo. O quarto
aspecto está relacionado ao fato de a agricultura ter sido relegada a segundo
plano, pois a prioridade do Estado era, com efeito, a industrialização. Além
disso, a coletivização das terras resultou na queda da produção agrícola. E, por
fim, o último aspecto que foi, de fato, o mais relevante para a ocorrência da
desintegração do Leste Europeu. O isolamento desses países do resto do
continente. Enquanto a população se mantinha na miséria para fomentar o sistema
socialista implantado nesses países, sistema que não admitia a existência de
classes sociais para criar a ilusão de que existia apenas a classe
trabalhadora, os burocratas do Estado podiam, em condições especiais, adquirir
produtos de consumo não acessíveis à população com muita facilidade. Além
disso, foi criado o Comecom, uma
organização criada pela URSS para isolar a economia do Leste Europeu do resto
do continente, criando interdependência entre os Estados agregados a ela. Além
disso, havia também uma polícia que segundo o Pacto de Varsóvia poderia
intervir nos países membros em caso de ameaça à integridade territorial desses
paises. Essa polícia era na prática usada como repressora da população.
A resposta a essa subordinação do Leste Europeu, foi a desintegração da
URSS, que aos poucos teve sua imagem política desgastada graças à forma de
governo repressora e abusiva da URSS. Com o fim do advento da Guerra Fria e a
queda do Muro de Berlim, os países subordinados entraram em colapso juntamente
com seu dominador, e buscaram consolidar novas formas de governo. Ora, tais
formas de governo já haviam sido delineadas no trajeto histórico da
movimentação libertaria dentro desses países.
Num período de quarenta anos a URSS passou por três tentativas de
desligamento da Europa Oriental. A Revolução Húngara em 1956, a Primavera de Praga
na Tchecoslováquia em 1968 e a crise da Polônia que ocorreu de 1980 a 1981. O governo
soviético conseguiu suprimir essas crises e a população pagou com milhares de
mortos pelas tropas que foram acordadas como defensoras no Pacto de Varsóvia. A
Cortina de Ferro, assim chamada por Winston Churchill, primeiro ministro da
Inglaterra, estava em crise e não mais serviria ao decadente poderio russo. A
onda de insatisfação a que fora levado o Leste Europeu contribuiu em grande
parte para que a situação hegemônica da URSS se partisse em uma questão de
tempo. Estava se diluindo por dentro o socialismo soviético. Na Iugoslávia, a
crise do socialismo real em que estava mergulhado o Leste Europeu causaria uma
guerra civil tão sangrenta e dada à xenofobia quanto a Segunda Guerra
Mundial.
A Iugoslávia, até 1991, era eminentemente composta por seis Repúblicas
federadas: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e
Bósnia-Herzegóvina além de mais duas regiões autônomas sob influencia da Sérvia,
Voivodina e Kosovo. A Iuguslávia existia como nação desde o fim da Primeira
Guerra Mundial, mas com o fim do socialismo, a estabilidade mantida entre as
suas repúblicas não se sustentou e a tensão existente na região desembocou em
uma sangrenta guerra civil entre sérvios e croatas.
A formação iugoslava trazia dentro de si a própria ruína, pois sua
história sempre fora de antagonismos e rivalidades entre os povos que compunham
seu território. Desde o século IX até a contemporaneidade existiu entre esses
povos rivalidades étnicas e religiosas. De acordo com a teoria de Huntington,
seria eminente um conflito na região após a Guerra Fria, justamente por viverem
em um mesmo território povos de diferentes civilizações.
A Desintegração da Iuguslávia – Tragédia,
metal forjado pelas diferenças
étnicas
Após um período de estabilidade marcada pela liderança de Tito[2],
que tentava colocar as diferenças étnicas em segundo plano unificando o Estado
em prol do socialismo, uma tragédia viria a acontecer: a guerra civil
sérvio-croata.
Seus antecedentes se explicam nas feridas que a Segunda Guerra Mundial
criou nessa região, que se mantiveram abertas sangrando no seio da população sérvia
durante todo governo de Tito, após a guerra. Os croatas praticaram, durante o
período da guerra mundial, o extermínio sérvio em massa. Limpeza
étnica, com direito a campo de concentração, como em Jasenovac, além da
violência aplicada pelos croatas às famílias sérvias, que morriam a marretadas
em trilhos de trem estendidos, agonizando, a espera de sua vez. A ocupação
alemã durante a Segunda Guerra acirrou o ódio racial na região dos Balcãs, pois
apoiava os croatas contra seus vizinhos. Possuíam uma milícia no modelo da SS.
Alinhavam-se ao lado dos nazistas croatas, albaneses muçulmanos enquanto o
restante da população fugia para as montanhas. Lá, esses perseguidos
encontraram a forma de resistir à ameaça de extermínio. Organizam a resistência
sérvia pelos seus monarquistas, os chetnis,
sob a liderança do general Draza Mihailovic, o ex-ministro da defesa da
Iuguslávia além do grupo de guerrilheiros comunistas sob o comando de Josef
Broz, que ficou conhecido como Tito. Ao final da guerra, com a derrota dos
nazistas e croatas, a resistência pode retomar seu lugar de direito. Aconselhava
seus representantes a não colocar em pratica retaliações contra os croatas, pois
era importante agora estabilizar os Balcãs.
A liga comunista comandada por Tito havia criado uma defesa forte nas
montanhas e, em tempo integral, foi um grande obstáculo para as tropas de
ocupação nazista. Após a queda de Hitler e a vitória da resistência, Tito foi
colocado no governo da Iuguslávia.
Sob o comando de um único homem, a Iuguslávia passou tempos de relativa
paz, pois as atitudes de Tito tornaram-no um líder carismático entre os povos
eslavos do sul. A restauração da Republica Socialista Federada da Iuguslávia só
fora possível graças às habilidades estratégicas de Tito que, enxergando o
tamanho da ferida ainda aberta e a exaustão geral entre as repúblicas que
compunham o Estado Iugoslavo, tomou como prática uma nova forma de aplicar o
socialismo através de uma política integradora que pelo menos atenuava as
diferenças etno-culturais entre os eslavos. Essas que estavam calcadas
principalmente nas diferenças religiosas, a oposição de católicos, ortodoxos e
muçulmanos. Como visionário, Tito percebeu que diminuindo a influência dos
sérvios e croatas, ele diminuiria a chance dos antigos ódios da época da
Segunda Guerra causarem conflitos e, nesse sentido, aumentou a representatividade
dos outros grupos étnicos que compunham a Iuguslávia.
O rompimento com a URSS, em 1948, representou um grande feito. Tito era
visto como um homem forte, que havia enfrentado os dois maiores tiranos do
Ocidente, primeiro Hitler e agora Stalin, que se aproveitava da fragilidade do
Leste Europeu para expandir sua política. O líder manteve a Iuguslávia coesa
frente às pressões da Guerra
Fria e mesmo as
diferenças étnicas estavam seladas por pelo menos um cisco histórico, pois o
respeito que Tito havia conquistado entre os povos eslavos do sul era capaz de
transcender o ódio entre eles. Segundo ele, a ameaça soviética era forte demais
e a Iuguslávia teria que ser homogênea para poder proteger seus filhos. Os
fatores econômicos também tinham força nessas circunstâncias, pois com a
autonomia conquistada por Tito em relação a URSS, o país pode manter uma
política externa independente ganhando o respeito internacional o que era de
forte efeito na sua economia. Enquanto seus vizinhos enfrentaram a duras penas
o comando repressor da URSS a Iuguslávia gozava de certa autonomia e organização.
Em 1955, juntamente com o Egito e a Índia, a Iuguslávia lançou as bases da Organização
dos não alinhados, países que não se encaixavam em apoiar a ideologia de nenhum
dos blocos antagônicos (Capitalismo x Socialismo) que haviam se erguido no mundo
do pós-guerra.
Quando a Iuguslávia parecia estar debruçada sobre a bandeira da
estabilidade pronta para se tornar um gigante do Leste Europeu, os conflitos
étnicos mais uma vez trouxeram conflitos na região. É realmente por cultura que
se mata, e a Iuguslávia lançou mão de todo esse balanço positivo em nome de
antigos ódios. Ficou claro que as diferenças não haviam sido superadas quando,
na década de 70, um grupo nacionalista croata cometeu uma série de atentados no
país. Definitivamente, para eles, não poderia haver convivência com os sérvios.
Diante da ameaça de uma nova guerra civil, o general promoveu reformas nas
estruturas de poder. Ele delegava a cada uma das repúblicas um grau maior de
autonomia política e os presidentes de cada uma das repúblicas ocupariam
alternadamente a liderança do grupo de países que formavam a Iuguslávia.
Em quatro de maio de 1980, Tito veio a falecer, o que rompeu o último elo
de estabilidade no país. Como então manter a unidade iugoslava? A tentativa
seria a de manter o a rotatividade no poder executivo que ele havia proposto, para
assim manter o equilíbrio de poder e amainar as rivalidades. Infelizmente, nenhum dos nomes indicados pelo
parlamento tinha a estatura de poder e carisma que Tito gozava e logo todo o
trabalho de Tito começou a desandar. À morte de Tito, se somou a queda do muro
de Berlim. A decadência do regime socialista perante o cenário internacional
fez com que uma onda de convulsões populares tomasse conta dos Balcãs. Pouco
tempo após a morte de Tito, a Iuguslávia enfrentou uma grave crise econômica. O
desemprego aumentou, eclodiram reivindicações populares e greves, a inflação
passou a crescer e o aumento da divida externa passou a aumentar
sistematicamente. O colapso generalizado do socialismo na Europa fez a crise
adquirir dimensões absurdas o que motivou aquelas feridas que ainda sangravam
pelos conflitos étnicos a se abriram de maneira irreversível se sobrepondo
sobre todos os outros fatores. Assim eclodiu a guerra civil que a Iuguslávia
viria a enfrentar.
As Repúblicas
Federadas, frente a esse colapso no cenário Mundial, mostravam sua insatisfação
de ter que conviver sob uma mesma liderança. No início de 1990, a LCI [3]
abre as portas para o pluripartidarismo e perde sua grande influência política.
Ainda em janeiro do mesmo ano, acontecem focos de revoltas na região autônoma
de Kosovo. No mês seguinte, as LCI da Eslovênia, Macedônia e Croácia mudam de
nome em prol do surgimento de partidos de caráter nacionalista. Em abril, a
Eslovênia e a Croácia elegem governantes não comunistas. Em junho e julho, a Sérvia
dissolveu o parlamento e Kosovo propunha transformar-se na sétima republica do
país, que devido a sua proposta acabou sendo reanexada ao território Sérvio,
perdendo sua autonomia conquistada com o governo de Tito. A Bósnia também
caminhava frente a sua separação da Iuguslávia.
O ano seguinte também foi conturbado. A Eslovênia e a Croácia declaram
sua separação da Iuguslávia com o apoio da Alemanha Ocidental. Essa declaração
da Eslovênia fez com que em Belgrado, as tropas federais entrassem em choque
com as forças locais. Quando a Croácia seguiu o caminho da Eslovênia, se deu
por concretizado o nascimento de uma nova ordem nos Balcãs e estava claro que
as diferenças étnicas voltariam a causar mortes. O conflito deslocou-se então para
a região onde os sérvios constituíam maioria e com medo de passarem novamente
pela situação de humilhação ocorrida durante a Segunda Guerra, tentaram obter o
controle das regiões fronteiriças, auxiliados por tropas federais que eram
praticamente constituídas por uma maioria de sérvios.
Em 1992, a Bósnia, por meio de
um plebiscito, declara sua separação da Iuguslávia e a população sérvia que
vivia na Bósnia reagiu da mesma forma que seus irmãos alocados na Croácia, mas,
na Bósnia, a situação foi bem pior, pois a diversidade étnica era maior e
incluía além de sérvios e croatas, muçulmanos. A partir daí, os sérvios
começaram a se posicionar de maneira estratégica e a praticar a purificação
étnica eliminando aqueles que não eram sérvios.
A ONU tentava manter uma política de ajuda humanitária às regiões
devastadas pelos sérvios e a OTAN, em 1995, interveio na Bósnia com pesados
bombardeios partindo de aviões norte-americanos em solidariedade aos croatas e
muçulmanos ali presentes. Nesse momento, os sérvios, liderados por Milosovic,
arrasaram os países envolvidos e, em 1993, passaram a dominar 70% do território
Bósnio. A Bósnia só conseguira resolver essa crise com a ajuda da OTAN que
determinou um massacre contra os sérvios que ali lutavam. Em 2001, os albaneses
tornaram-se praticamente donos de Kosovo com a ajuda da OTAN, que, querendo
expandir-se para o sul, atacaram a minoria sérvia ali presente e a Macedônia. A
OTAN se opôs a essa ofensiva albanesa, mas isso não foi o suficiente para
evitar que os guerrilheiros albaneses e as tropas macedônicas encontram-se em
meio a sucessivos atentados e contra-ataques de ambas as partes.
O desfecho da Sérvia teria foi dos piores. Após 72 dias de ataques
sucessivos efetuados pela OTAN, a Sérvia se viu obrigada a render-se e a vender
seu estimado presidente como prisioneiro de guerra para ser julgado pelo
Tribunal de Haia. Porém, até hoje a sombra desses conflitos está muito viva na
região balcânica, que não deixou de ser uma bomba prestes a explodir por
qualquer gota de água que faça transbordar o caldeirão étnico ali alocado.
O Paradigma de Huntington
Huntington estava certo ao dizer que o novo paradigma de guerra seria a
cultura. O show de horrores que tomou conta dos Balcãs na década de 90 e se
expande até hoje como uma bomba relógio pronta a explodir é, com efeito, fruto
da diversidade étnica e cultural.
A nova ordem mundial multipolar que Huntington coloca em questão é
formada por oito civilizações: a ocidental, a africana, a islâmica, a sínica, a
hindu, a ortodoxa, a latino-americana e a japonesa, entendendo que civilização
para ele é identidade cultural mais ampla de um povo. Um exemplo disso seria um
francês e um italiano. São de culturas diferentes, mas são europeus e, num
organismo maior do que esse, são ocidentais.
O que ocorre nos Balcãs é o chamado choque de civilizações, pois ali se
encontram num mesmo território três linhas de civilização a Islâmica, Ocidental
e a Ortodoxa. Huntington divide o mapa-múndi em áreas de cisão, onde se
alinhariam as fronteiras de diferentes civilizações. É no território que se
encontram as linhas de cisão que aconteceria o choque de civilizações e, a
partir desse choque baseado na intolerância, a guerra. Para Huntington, não
haveria mais guerras mundiais por disputa de mercado e hegemonia de estruturas
políticas, mas sim por contas das diferenças culturais entre as civilizações e
essas linhas divisoras seriam o foco dessas disputas.
O globo é dividido em oito modelos diferentes de civilização, todas elas
propensas a desenvolver conflitos inter-étnicos em suas fronteiras. O que
aconteceu na Iuguslávia foi o choque na zona de cisão, onde a luta se dá pelo
controle do território e a soberania de uma determinada cultura. A Bósnia e
Kosovo estão bem ao centro da linha de cisão e lá ocorreram os sangrentos
combates entre as diferentes etnias balcânicas como vimos. Na Bósnia, a disputa
se dá pelo choque de três civilizações, ocidentais croatas contra islâmicos
bósnios e eslavos ortodoxos sérvios. Em Kosovo, o conflito se encerra entre
islâmicos kosovares e eslavos ortodoxos sérvios. Huntington, ao escrever “O
choque de civilizações”, analisa o contexto sobre esse olhar e de forma
empírica, constata sua teoria.
Ele propõe como solução a intervenção do Estado núcleo, que diferentemente
das grandes potências hegemônicas da Guerra Fria, nada mais seriam do que líderes
dos demais Estados que constituem um bloco civilizacional. A Rússia como líder
dos Estados eslavos ortodoxos, deveria intervir de maneira positiva na Sérvia
para acalentar o conflito ali decorrente. Não seria da conta do Ocidente esse
conflito pois a civilização ocidental não estava envolvida. Devido à
intervenção equivocada da OTAN é que ainda hoje perdura a sombra de um novo
conflito na região.
Para Huntington, a única maneira de a nova ordem mundial sobreviver é o
alicerçamento em laços culturais comuns entre si. Os EUA, a ONU e OTAN deveriam
parar de expandir sua política intervencionista em regiões que não sejam de sua
alçada. Ele afirma que a civilização ocidental, para justificar sua gananciosa
expansão, utiliza o pretexto de levar o mundo a uma civilização universal de
igualdade e democracia. Seu produto não será nunca a igualdade, mas sim o
confronto com outras sociedades para justificar e legitimar seu predomínio
cultural.
Ao intervir nos Balcãs, foi isso o que os EUA e OTAN queriam mostrar para
o mundo: sua capacidade de expansão cultural. Mas o fato é que nem toda cultura
pode ser submetida, pois elas estão dentro de uma identidade cultural maior. Huntington
propõe que os Estados núcleos, em uma atitude realista visando a paz, não
interfiram em guerras que não estejam envolvidos a civilização que lideram,
mesmo que seja em nome dos direitos humanos, justificativa bem considerável
para a intervenção.
A Iuguslávia, agora já desintegrada, ainda mantém as diferenças étnicas
em suas linhas de cisão. Para Huntington, tais diferenças só podem ser contidas
pelos russos no que diz respeito aos sérvios e pelos islâmicos no que diz
respeito aos bósnios.
A observação empírica dos conflitos armados que ocorrem na atualidade
valida a teoria de Huntington pois o intervencionismo ocidental, encabeçado
pelos EUA, em regiões dominadas por outras civilizações, só trouxe mais
violência como aconteceu na Iuguslávia.
[1] Esse artigo daria em 1996 luz a um livro : Choque de civilizações
[2] Período que durou desde o final da Segunda Guerra Mundial até a morte de Tito em 1980.
[3] Liga Comunista Iugoslava, até então único partido existente na Iuguslávia desde a inclusão da política socialista.
BIBLIOGRAFIA
OLIC, Nelson B. – “A Desintegração do Leste: URSS, Iuguslávia, Europa Oriental” São Paulo: Editora Moderna 1993.
SERVA, Leão – “A
Batalha de Sarajevo” Editora Página Aberta Ltda.1994.
VESENTINI, José W. – “Novas Geopolíticas: As Representações do
século XXI” São Paulo: Editora Contexto 2003.
Autoria do texto : Cintia Migliorini Lins - Bacharel em Ciências Sociais
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